segunda-feira, 26 de julho de 2010

Terreno baixo

Ao abrir a janela, costumava ver um campinho de terra batida, irregular e
quando chovia estava cheio de lama. Era algo comum de se achar na cidade,
mesmo nos dias de hoje em que o cinza domina o verde. Parecia um lugar paralelo ao stress da cidade, um mundo completamente diferente. É comum nas brincadeiras de várzea o placar não importar muito. Existia rivalidade, pois ninguém gosta de perder, mas a verdade que os melhores sorrisos não eram alcançados com a vitória, e sim com os lances engraçados que a várzea proporcionava. Quem nunca ficou rindo de um colega que caiu no terreno irregular ou furou um chute no mesmo? Claro, essas brincadeiras exigiam um grau de respeito, e esse respeito só existia na várzea. Nunca se desejava o pior ao companheiro, era tudo válido em prol da diversão.
A questão é que os campos de várzea, ou até mesmo na rua, foram e ainda são palcos do verdadeiro futebol. O Futebol alegre e sem fins competitivos ou lucrativos. Basta apenas ter quatro chinelos para os gols e um giz pra marcar o campo. Gostávamos de jogar no campo bom, mas nunca trocamos a boa e velha várzea. Deixávamos o campo para os meninos ricos, mas será que alguma vez perdemos pra eles? Tínhamos a técnica apurada e uma resistência maior. Em campo, isso faz muita diferença. Não ter uma bola boa, equipamentos de segurança ou um campo regular deu uma vantagem em relação aos “estruturados” do Condomínio. E pensar que hoje os jogadores reclamam da vida boa que tem. Provavelmente isso deve ser uma característica marcante nos trabalhadores, até porque hoje o jogador é chamado de profissional. Bom, sendo assim,não tenho que reclamar. Minha geração com certeza é uma das últimas que aproveitou o sentido do futebol em sua raiz. É uma pena ver as crianças e suas obsessões por marcas e dinheiro. Nunca precisei de uma chuteira da moda ou uma bola p
erfeita pra ser feliz, e nunca vou precisar.

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